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Ecrime

17 MESES DEPOIS

Evolução dos golpes digitais: fraudes bancárias, falsas comunicações judiciais e engenharia social entre 2025 e 2026.

Evolução dos Golpes Digitais: 17 Meses Depois, o Cenário é Ainda Mais Preocupante

A evolução dos golpes digitais nos últimos 17 meses revela uma transformação preocupante nas estratégias dos criminosos. De maio de 2025 a outubro de 2026, o Brasil assistiu ao avanço das fraudes digitais, à sofisticação da engenharia social e ao surgimento de novas formas de manipulação. O eCrime retoma suas publicações para continuar documentando, analisando e compreendendo essa transformação.


 

1. O tempo passou. Os golpes não pararam

Dezessete meses.

Esse foi o intervalo entre nossa última publicação, em maio de 2025, e este novo artigo, em outubro de 2026.

Nesse período, muita coisa mudou. A tecnologia avançou, a inteligência artificial tornou-se mais presente no cotidiano e a digitalização de serviços continuou transformando a maneira como pessoas, empresas e instituições se relacionam.

Mas houve também uma transformação menos positiva.

Os golpes digitais não desapareceram. Ao contrário, os dados indicam que determinadas modalidades cresceram, enquanto os criminosos aperfeiçoaram suas técnicas de persuasão, falsificação de identidade e exploração da confiança.

Se antes muitos golpes podiam ser identificados por mensagens mal escritas, promessas exageradas ou páginas grosseiramente falsificadas, hoje encontramos operações que reproduzem procedimentos empresariais, comunicações bancárias, atendimentos jurídicos e até supostas determinações judiciais.

O criminoso já não precisa apenas convencer alguém de que existe uma oportunidade. Ele pode construir uma história inteira, cercada de informações verdadeiras, personagens aparentemente legítimos e procedimentos cuidadosamente encenados.

A fraude deixou de depender exclusivamente da mentira evidente. Passou a explorar a credibilidade de informações verdadeiras colocadas a serviço de uma narrativa falsa.


 

2. Os números confirmam o avanço das fraudes digitais

Os levantamentos publicados desde nossa última atualização ajudam a compreender a dimensão do problema.

Segundo a Serasa Experian, foram identificadas 3.889.581 tentativas de fraude de identidade digital entre janeiro e agosto de 2026, aproximadamente 974 mil a mais que no mesmo período de 2025.

Tentativas de fraude de identidade digital no Brasil

Variação anual
+33,4%

Tentativas adicionais
~974 mil

O gráfico compara períodos equivalentes de 2025 e 2026, dentro do intervalo de 17 meses abordado no artigo. Não representa uma série mensal completa de maio de 2025 a outubro de 2026, nem o total de crimes consumados.

Os indicadores ajudam a compreender a evolução dos golpes digitais no Brasil entre 2025 e 2026.

Os números revelam uma tendência que merece atenção. O aumento não se limita ao volume de tentativas.

No primeiro semestre de 2026, a Serasa Experian identificou mais de 50,7 milhões de mensagens associadas a golpes e constatou que a quantidade de páginas falsas detectadas cresceu 107,1% em relação ao mesmo semestre de 2025.
Serasa Experian

O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública também registrou crescimento do estelionato eletrônico em 2025, reforçando que o problema ultrapassa os sistemas de monitoramento privados e aparece nas estatísticas de segurança pública.
Publicações Fórum Segurança

É importante compreender que essas pesquisas utilizam metodologias diferentes. Tentativas de fraude, mensagens suspeitas e ocorrências policiais não representam a mesma medida e não devem ser somadas.

Ainda assim, todas ajudam a compor o retrato de um ambiente digital cada vez mais explorado por organizações criminosas.


 

3. A nova engenharia social: quando o golpe parece legítimo

A evolução dos golpes digitais também está relacionada à crescente sofisticação da engenharia social.

A engenharia social não é uma técnica nova. O que mudou foi a capacidade de construir situações convincentes, personalizadas e, muitas vezes, difíceis de distinguir de procedimentos verdadeiros.

Em agosto de 2026, uma pesquisa da Quod, divulgada pela Agência Brasil, apontou que a engenharia social representava aproximadamente 40% dos indícios de fraudes financeiras identificados no país.

Entre as estratégias que ganharam relevância estão:

1. Golpes personalizados com informações reais

Criminosos utilizam nomes, dados empresariais, informações processuais e referências bancárias para construir uma comunicação aparentemente legítima. A precisão de determinados detalhes reduz a desconfiança da vítima.

2. Inteligência artificial e falsificação de identidade

Recursos de geração de voz, imagens, textos e vídeos ampliam as possibilidades de personificação. A inteligência artificial não substitui a engenharia social tradicional, mas pode aumentar o realismo de determinadas abordagens.

3. Falsas comunicações jurídicas e judiciais

Golpistas simulam contatos de advogados, servidores, instituições e autoridades. Processos reais, documentos e supostos procedimentos de liberação de valores são utilizados para dar aparência de legalidade à fraude.

4. Ecossistemas de fraude mais estruturados

Uma abordagem pode começar em um anúncio, continuar em um aplicativo de mensagens e terminar em uma página falsa. Em vez de uma única mentira, a vítima encontra diferentes elementos que parecem confirmar a mesma história.

O relatório A Jornada dos Golpes, do Observatório Lupa, também identificou uma mudança importante: a utilização de acontecimentos reais e assuntos em destaque como instrumentos de credibilidade passou de 55% para 66% entre os dois períodos anuais analisados, encerrados em abril de 2025 e abril de 2026.
Lupa

Isso revela uma característica especialmente preocupante da criminalidade digital contemporânea: o golpista não precisa inventar todos os fatos. Basta manipular o significado deles.


 

4. O perigo está na construção da confiança

Acompanhar a evolução dos golpes digitais é parte fundamental da missão do eCrime.

Um dos aspectos mais relevantes dos golpes modernos é a forma como a vítima é conduzida ao longo de uma sequência de acontecimentos.

O contato inicial pode parecer absolutamente normal. Em seguida, surgem informações corretas, documentos, confirmações e orientações aparentemente coerentes.

A fraude se desenvolve gradualmente.

Cada etapa prepara a próxima. Cada informação verdadeira reforça a credibilidade de uma afirmação falsa. E, quando surge uma solicitação suspeita, a vítima já percorreu um caminho de confiança construído pelo próprio criminoso.

É por isso que reduzir a prevenção a recomendações como não clicar em links desconhecidos ou desconfiar de mensagens estranhas já não é suficiente.

Essas orientações continuam importantes, mas precisam ser acompanhadas de uma compreensão mais profunda sobre os mecanismos de manipulação.

O conhecimento técnico, a experiência profissional e a familiaridade com determinado assunto podem ajudar na identificação de fraudes, mas não eliminam o risco.

Em determinadas situações, inclusive, a utilização de informações específicas de uma área profissional pode fazer com que uma abordagem fraudulenta pareça ainda mais convincente.

O problema não está apenas em acreditar numa mentira. Está em reconhecer elementos verdadeiros e, a partir deles, confiar numa conclusão cuidadosamente fabricada.


 

5. Documentar para compreender. Compreender para prevenir.

Os golpes digitais se transformam rapidamente. Uma modalidade identificada hoje pode apresentar novas versões amanhã, com diferentes personagens, meios de contato, argumentos e tecnologias. Entretanto, ao documentar e analisar essas ocorrências, conseguimos identificar padrões, compreender como os criminosos conquistam a confiança das vítimas, exploram informações e constroem situações destinadas a induzi-las ao erro.

É nesse contexto que reafirmamos o propósito do eCrime. Mais do que reproduzir notícias ou divulgar alertas, nosso compromisso é reunir informações, documentar casos e estudar os mecanismos da criminalidade digital, contribuindo para a construção de uma base de conhecimento acessível, responsável e comprometida com a privacidade e a proteção dos dados pessoais. Cada caso analisado representa uma oportunidade de ampliar a compreensão sobre essas práticas e contribuir para o desenvolvimento de estratégias de prevenção.

Dezessete meses após nossa última publicação, retornamos a um cenário mais complexo, no qual os avanços tecnológicos também ampliaram as possibilidades de atuação dos criminosos. Não sabemos quais serão as próximas modalidades de fraude, mas sabemos que acompanhar essa evolução é indispensável. Por isso, o eCrime seguirá dedicado à pesquisa, ao registro e à análise dos crimes digitais, com responsabilidade, compromisso técnico e respeito às pessoas envolvidas. Afinal, conhecer os mecanismos de uma fraude é um passo fundamental para evitar que ela se repita.

eCrime — Conhecer para compreender. Compreender para prevenir.

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